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Resumo 

O conceito de missões está presente na maioria das igrejas, diferindo, no entanto, em aspectos consensuais e interpretativos. A missiologia adventista está fundamentada no ordenamento de Jesus, sendo que a visão e teologia da Igreja Adventista do Sétimo Dia encontram respaldo nos escritos de Ellen G. White para compreender e aplicar a missão de levar o Evangelho ao mundo conforme os ensinamentos do Mestre.

Palavras-chave: Missões. Missiologia. Adventismo. 

Abstract

The term missions is present in most churches, differing, however, on consensus and interpretation. Adventist Missiology is grounded in land of Jesus, and the vision and theology of the Seventh-day Adventist Church are supported in the writings of Ellen G. White to understand and implement the mission of bringing the Gospel to the world according to the teachings of the Master.

Key-words: Missions. Missiology. Adventism.

INTRODUÇÃO

A missiologia encontra nas igrejas cristãs um campo vasto, haja em conta que o próprio Cristo ordenou a missão de levar o evangelho a todos os povos, reinos e línguas, em todos os lugares do mundo. Em cumprimento a essa ordem, os cristãos têm proclamado o evangelho de diferentes maneiras, conforme interpretam o sentido e o conceito de missão.

A missão pode ser compreendida em sentido amplo, abrangendo as diferentes missões a que a igreja se propõe para realizar o trabalho de expandir o Reino de Deus, ou, em sentido restrito, refere-se às atividades missionárias de pregação do evangelho, propriamente dito. 

Considerando que Deus foi o primeiro a concretizar a missão de enviar Seu Filho para realizar a obra de salvação, e Jesus também enviou Seus discípulos ao mundo, infere-se que a igreja de Cristo tem um importante papel a exercer na atividade missionária. Sendo assim, a compreensão correta da missão ordenada por Cristo deve ser buscada, mediante a orientação do Espírito Santo e o conhecimento da Palavra de Deus.

Neste artigo, propõe-se a apresentar a missiologia cristã na perspectiva teológica-adventista, traçando um comparativo entre os pensamentos e conceitos de autores não adventistas consagrados por seus estudos acerca do tema, apresentando a visão e teologia da missão adventista conforme fundamento bíblico e orientação dos escritos de Ellen G. White. 

1 CONCEITUANDO A MISSÃO

Segundo Wilhan José Gomes “muito se tem discutido e estudado no que diz respeito ao conceito correto do termo “missão”, e nem sempre tem havido consenso sobre como deve ser entendido esse termo”. 

Desde meados do século XX, vários sentidos têm sido aplicados ao termo “Missão”, alguns mais estreitos, outros, mais amplos, que carecem de análise para serem compreendidos devidamente. Abaixo alguns conceitos e algumas definições de Missão.

1.1 Conceitos e definições de missão

Em sua obra “MissionTheology: Introduction”, o missiólogo Karl Muller apresenta uma lista com os seguintes conceitos:

1. Missão é o envio de missionários para um designado território:

2. Missão tem a ver com as atividades realizadas por tais missionários;

3. Missão é a área geográfica aonde os missionários realizam seus ministérios;

4. Missão é a agência de missionários que realizam seus ministérios aos seus respectivos campos;

5. Missão é a propagação do evangelho aos povos não alcançados;

6. Missão é o centro do qual os missionários irradiam o evangelho;

7. Missão é uma série de serviços religiosos com o propósito de despertar vocações missionárias;

8. Missão é a propagação da fé Cristã;

9. Missão é a expansão do reino de Deus;

10. Missão é a conversão dos povos pagãos;

11. Missão é a plantação de novas igrejas.

Segundo Orlando Costas, “a missão de Deus é o descobrir de seu propósito redentivo em Cristo. Seu objeto é sempre o mundo – o mundo do homem, ou homens e mulheres em suas múltiplas situações de vida”. Costas interrelaciona igreja e missão, considerando que não existe uma sem a outra, sendo que a igreja cumpre a missão designada pelo próprio Deus. A igreja é missionária em sua essência. Desse modo, a missão da igreja é intrínseca a ela; a igreja é um instrumento missionário. A missão tem como objeto a participação pessoal e coletiva de todos os crentes, de modo direto ou indireto, por palavra e por ação, de modo que todos devem engajar-se na missão do Deus triúno, participando, dialogando e refletindo criticamente sobre os problemas, significados e possibilidades da missão, sendo, dessa maneira, servos da missão. Costas entende a missiologia como o pensamento teológico resultante do encontro da fé cristã com aspectos religiosos, ideológicos, culturais, sociais, econômicos e políticos, que o autor denomina de “encruzilhada”, cuja perspectiva implica na “missão como evento específico e comunicativo e como processo abrangente contextual”.

Charles Van Engen conceitua missão com riqueza teológica, usando os seguintes termos:

A missão de Deus (MISSIO DEI) ocorre principalmente quando a igreja intencionalmente cruza as barreiras que existem entre Igreja e não-Igreja, fé e não-fé para proclamar por meio da palavra e de obras a vinda do Reino de Deus em Jesus Cristo, através da participação da Igreja na missão de Deus em reconciliar pessoas a Deus, a eles mesmos, uns aos outros, e ao mundo e congregando-os dentro da Igreja através do arrependimento e fé em Jesus Cristo pela ação do Espírito Santo com a visão para transformar o mundo como um sinal da vinda do Reino em Jesus Cristo. 

Ao se referir à missão, Van Engen usa criativa e didaticamente os termos no, do e acima do caminho:

A teologia bíblica da missão deve: ser centrada em Jesus Cristo – missão do caminho; acontecer entre os povos e culturas do nosso mundo – missão no caminho; mover-se adiante no tempo, na fé peregrina do povo de Deus, antecipando a presença de Cristo e a vinda do Reino – missão acima do caminho. 

Ao ressaltar a centralidade de Cristo na missão, o referido missiólogo declara:

Nossa missão não é outra, nem menos e nem mais, do que a participação na missão de Jesus. Dizendo de forma negativa, quando não é missão de Cristo, ela pode ser uma expansão colonial, extensão da igreja, proselitismo ou serviço social – mas não é missão. Nossa missão é missão bíblica somente quando ela é centrada em Cristo Jesus. Nossa missão é do caminho. 

Ao falar que a missão se realiza no caminho, diz:

A história do evangelho é missão na rua. Quando aceitamos Jesus como seus discípulos, ele nos toma pela mão e nos leva para as cidades e vales entre as pessoas, em busca compassiva visando a transformação delas. (…) Orlando Costas fala do “Cristo fora dos portões”. Somente quando caminhamos no aqui-e-agora do sofrimento da humanidade é que verdadeiramente podemos ser encontrados por Jesus Cristo. 

A respeito da missão acima do caminho, Van Engen afirma:

Quando encontramos nosso Senhor no caminho, descobrimos que estamos na presença do Rei e que somos agora parte do seu governo que está sobre o caminho do presente em direção ao Reino de Deus vindouro. (…) Isso significa que a igreja existe para a missão “no poder do Espírito Santo”. Significa que tudo o que a igreja faz deve ser intencionalmente direcionado à missão no mundo, acima do caminho em direção ao Reino presente e vindouro. (…) A história de Deus em sua relação com a humanidade não está finalizada ainda. Em um sentido profundo, os Atos do Espírito Santo em missão por meio da igreja para o mundo estão e continuarão acontecendo até a vinda de Jesus Cristo novamente. 

René Padilla conceitua missão como a atuação da igreja sobre a realidade do mundo, um relacionamento concreto entre o Reino de Deus e a sociedade, cujo modelo de missão seja centrado em um estilo de vida profético, que aponte para Jesus Cristo como o Senhor da totalidade da vida, à universalidade da igreja e à interdependência dos seres humanos no mundo. A missão da igreja considera a pessoa na sua totalidade, no contexto no qual ela vive. 

As palavras do próprio autor destacam imperativamente a necessidade do termo missão ser adjetivado com a palavra integral:

Quando a igreja se compromete com a missão integral e se propõe a comunicar o evangelho mediante tudo o que é, faz e diz, ela entende o que o seu propósito não é chegar a ser grande numericamente, ou rica materialmente, ou poderosa politicamente. Seu propósito é encarnar os valores do Reino de Deus e testificar do amor e da justiça revelados em Jesus Cristo, no poder do Espírito, em função da transformação da vida humana em todas as suas dimensões, tanto em âmbito pessoal como em âmbito comunitário. 

Valdir R. Steuernagel destaca que “a igreja tem uma vocação que é principalmente missionária”, e que no cumprimento dessa vocação a igreja se compromete a proclamar, de palavra e fato, o Evangelho de Jesus Cristo. Isto quer dizer que entre tudo o que a igreja está chamada a fazer, a missão é o primeiro. Ressalta esse autor:

Cremos que a missão da igreja é algo mais que uma proclamação verbal e linear do Evangelho. A missão tem um compromisso com todo o conselho de Deus e se relaciona e afeta toda vida em sua expressão pessoal e comunitária. Tanto no passado como no presente se tem insistido muitas vezes que a missão não é mais que a evangelização, senão que esta é só uma dimensão da primeira. Por outra parte, estamos cansados de denunciar que a evangelização que só deseja salvar almas, empobrece o evangelho, tem uma soteriologia unilateral e não dignifica o ser humano como criação segundo a imagem de Deus (…) Só existe uma igreja se está esta igreja em missão (…).

Com respeito à missão, Ellen G. White faz as seguintes deliberações:

A igreja é o instrumento apontado por Deus para a salvação dos homens. Foi organizada para servir e sua missão é levar o evangelho ao mundo. Desde o princípio tem sido plano de Deus que através de Sua igreja seja refletida para o mundo Sua plenitude e suficiência. Aos membros da igreja, a que Ele chamou das trevas para a Sua maravilhosa luz, compete manifestar Sua glória.

Dados os conceitos e definições de diferentes autores cristãos a respeito da missão, compete analisar a missiologia em seu aspecto mais amplo, que envolve todos os aspectos relacionados com a proclamação do Evangelho e a expansão do Reino de Deus.

Até o século XVI, o termo “Missão”, foi usado exclusivamente com referência à doutrina trinitária, isto é, ao papel da trindade na história da redenção. O envio do filho pelo Pai, e por sua vez, o envio do Espírito Santo pelo Pai e pelo Filho, cuja interpretação missiológica deu origem à doutrina chamada na história de “Filioque”. Esta interpretação, contanto que aceita como doutrina básica da igreja Cristã, foi um dos motivos da cisão do Cristianismo medieval no ano de 1054.

1.2 Uma definição mais ampla de missão

Em seu sentido mais amplo, a missão é tudo o que a igreja faz a serviço do Reino de Deus (Missões no plural). Em sentido mais restrito, contudo, a missão refere-se às atividades missionárias, a pregação do evangelho entre povos e culturas em cujos meio ele não é conhecido (Missão no singular). Alguns autores exemplificam esses aspectos da missão relacionadas com a sua amplitude.

J. H Bavinck define missões da seguinte maneira:

Missões é aquela atividade da igreja, essencialmente nada mais do que a atividade de Cristo, realizada por meio da igreja, pela qual a igreja, neste período intermediário, chama os povos da terra ao arrependimento e à fé em Cristo, de modo que se tornem seus discípulos e, pelo batismo, sejam incorporados à comunhão daqueles que esperam a vinda do Reino.

Carlos Del Pino, em artigo publicado diz que “a missão da igreja não pode ser algo independente de Deus e de Cristo, como se a igreja pudesse realizá-la por si só”. É exatamente este o ponto da definição de Bavinck quando ele diz que “Missões é aquela atividade da igreja, essencialmente nada mais do que a atividade de Cristo”.

Bosch nos oferece também uma definição de missão que contribui para a compreensão da amplitude de missões:

 A missão constitui um ministério multifacetado em termo de testemunho e serviço, justiça, e cura, reconciliação, paz, evangelização, comunhão, implantação de igrejas, contextualização, etc.. Inclusive o intento de arrolar algumas dimensões da missão, porém está repleto de perigo, porque de novo sugere que nos é possível definir o que é infinito. Quem quer que sejamos, espreita-nos a tentação de enclausurar a Missio Dei nos estreitos confins de nossas próprias predileções, voltando, necessariamente, à unilateralidade e ao reducionismo”.

Complementando as definições acima, Labieno Palmeira comenta que:

Fazer missões é procurar estar em sintonia com Deus, empenhando-se ao máximo para ver o que Deus vê, ouvir o que Deus ouve e conhecer como Deus conhece, e não apenas isto, é estar disponível para descer onde Deus quer descer, livrar aqueles que Deus deseja libertar e fazer subir aqueles que Deus deseja levar para a terra que mana leite e mel.

Analisando as definições dadas pelos diferentes autores, percebe-se que existem uma completude na missão, onde se interrelacionam as atividades da igreja com o testemunho pessoal do cristão, tendo como fundamento a presença constante de Jesus Cristo por meio do Espírito Santo, sem o qual o trabalho missionário não se realiza.

2 DIMENSÕES MISSIOLÓGICAS EM ELLEN G. WHITE

Uma vez conceituada missão, cabe esclarecer as bases bíblicas ou teológicas que Ellen White usou em seus escritos para tratar do tema da missão e que fundamentam em grande parte a missiologia adventista. Nos escritos da autora podem-se distinguir pelo menos três dimensões teológicas da missão confiada à igreja cristã adventista: a dimensão soteriológica, a dimensão escatológica e a dimensão eclesiológica.

2.1 A dimensão soteriológica

A respeito dessa dimensão, que significa o estudo da salvação humana, Ellen White assevera:

Ao nosso redor as almas perecem em seus pecados. Cada ano milhares e milhares estão morrendo sem Deus e sem esperança de vida eterna. As pragas e os juízos de Deus estão fazendo sua obra e as almas estão indo à ruína porque a luz da verdade não tem resplandecido em seu caminho. E, no entanto, quão poucos estão preocupados pela condição de seu próximo! O mundo perece na miséria, e, contudo isto não chama a atenção nem sequer daqueles que dizem crer as verdades mais sublimes dadas alguma vez aos mortais. Deus requer que seu povo seja sua mão ajudadora para alcançar aos que perecem, mas muitos se contentam em fazer nada. 

Em declarações como esta e outras similares, coloca-se a responsabilidade pela salvação ou a perdição eterna dos pecadores sobre a igreja. Mais ainda há uma definida ênfase na ideia de que cada indivíduo que integra a igreja é pessoalmente responsável pela salvação ou perdição de algumas almas:

A cada um foi distribuída sua obra, e ninguém pode substituir a outro. Cada um tem uma missão de admirável importância, a qual ele não pode negligenciar ou passar por alto, uma vez que seu cumprimento envolve o bem de alguma alma, e a negligência da mesma, a ruína de uma criatura por quem Cristo morreu […]. Deus designou Seus filhos para proporcionarem luz aos outros, e se deixarem de o fazer, e almas forem deixadas nas trevas do erro por sua falta em fazer aquilo que poderiam ter feito se tivessem sido vivificados pelo Espírito Santo, serão então responsáveis a Deus.

Essa preocupação pelas almas e seu destino eterno nos lembra a de Paulo, que depois de ter declarado que “todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo”, pergunta-se: “Como, pois invocarão aquele em quem não creram? E como crerão naquele de quem não ouviram? E como ouvirão se não há quem pregue? E como pregarão se não forem enviados?” (Rm 10:13-15). Nessas quatro perguntas o apóstolo mostra a delicada tensão que existe entre uma obra de salvação suficiente e completa porque é a obra divina de Cristo, e a necessidade da “mão-de-obra” humana em dar a conhecer essa mesma salvação. 

A escritora deixa bem claro que a obra da salvação é uma ação divina, completa e suficiente. Porém, também fica claro que o instrumento humano, por meio da igreja, constitui um papel importante na atividade salvífica de Deus:

Na obra de resgatar as almas perdidas que perecem, não é o homem quem executa a tarefa de salvá-las; Deus é quem com ele trabalha. Tanto Deus como o homem atuam. “Sois coobreiros de Deus.” Temos que trabalhar de diferentes maneiras e idear métodos vários, e permitir que Deus atue em nós para revelar a verdade e revelá-Lo a Ele como Salvador que perdoa o pecado.

E acrescenta a autora, no que se refere àqueles que receberam a verdade em seus corações:

Em Sua sabedoria o Senhor põe os que estão à procura da verdade em contato com seus semelhantes que a conhecem. É plano do Céu que os que receberam a luz a comuniquem aos que se acham em trevas. A humanidade, tirando sua eficiência da grande Fonte da sabedoria, torna-se o instrumento, a agência operadora por meio da qual o evangelho exerce seu poder transformador sobre o espírito e o coração.

A decisão de dar ao instrumento humano uma participação ativa na obra de salvação é um ato de eleição que Deus mesmo assume. Deus poderia ter proclamado Sua verdade por meio de anjos imaculados; poderia ter alcançado seu objetivo de salvar aos pecadores, sem a ajuda humana, porém, “(…) a homens e mulheres foi entregue a sagrada tarefa de tornar conhecidas ‘as riquezas incompreensíveis de Cristo’ Ef. 3:8”. A decisão que a Divindade toma de incluir a humanidade na ação salvadora tem, pelo menos, duas razões importantes. A primeira tem a ver com o que poderíamos chamar de estratégia da salvação. Na sua sabedoria, “Deus não escolhe como Seus representantes entre os homens anjos que jamais caíram, mas seres humanos, homens de paixões idênticas às daqueles a quem buscam salvar”. 

O elemento soteriológico produz grande motivação para a missão da igreja. Uma verdade fortalece e unifica o conceito de missão. As almas que poderiam perecer sem Cristo devido a nossa indolência, e a ideia de que podemos ser responsáveis perante Deus pela perdição eterna dessas almas é um elemento ativador da obra missionária do indivíduo e da igreja como um todo. Nesse caso, um conceito teológico como é a soteriologia ou a ciência da salvação, pode constituir-se num elemento motivador e ativador da missão da igreja, e, por conseguinte, um princípio fundamental do crescimento eclesiástico.

2.2 A dimensão escatológica

O conceito de que o tempo do segundo advento tem uma relação direta com o cumprimento da missão por parte da igreja, tem raízes bíblicas: “E este evangelho do reino será pregado em todo o mundo, em testemunho a todas as gentes, e então virá o fim” (Mt 24:14). Esse conceito foi usado frequentemente por Ellen White e nos serve de alerta no que diz respeito ao cumprimento da missão. 

A causa de que a vinda de Cristo tem sido predita há tanto tempo, alguns concluem que deve ter havido algum erro […] mas não demorará mais do que o tempo que tome a tarefa de apresentar a mensagem a toda nação, língua e povo. Olvidaremos nós os que pretendemos ser estudantes das profecias, que a tolerância de Deus para com os ímpios é uma parte do vasto e misericordioso plano pelo qual Ele está tentando alcançar a salvação das almas? 

Nessa declaração, a autora não somente relaciona o tempo do advento com a terminação da pregação do evangelho, senão que também a aparente tardança da parousia com o mesmo argumento usado por Pedro quando diz que: “O Senhor não retarda a sua promessa ainda que alguns a têm por tardia; mas é longânimo para convosco, não querendo que alguns se percam, senão que todos venham a arrepender-se” (II Pe 3:9).

Um segundo conceito que a autora extrai das declarações de Pedro é que quanto mais o ser humano se envolve no cumprimento da missão, tanto mais se apressa a vinda do Senhor. “Apressando-vos para a vinda do dia de Deus”, diz o apóstolo (v. 12). Ellen White, então, interpreta a declaração no sentido de que a humanidade, com nossa obra missionária, deve adiantar a parousia:

É privilégio de todo cristão, não só aguardar, mas mesmo apressar a vinda de nosso Senhor Jesus Cristo. Se todos os que professam o Seu nome estivessem produzindo fruto para Sua glória, quão rapidamente seria lançada em todo o mundo a semente do evangelho! Depressa amadureceria a última seara, e Cristo viria para juntar o precioso grão. 

Em outra ocasião, exortou: “Dando o evangelho ao mundo, está em nosso poder apressar a volta de nosso Senhor. Não nos cabe apenas aguardar, mas apressar o dia de Deus (II Pe 3:12)”. 

2.3 A dimensão eclesiológica

O terceiro conceito teológico relacionado com a missão tem a ver com o crescimento e a expansão do corpo de Cristo: a igreja. O livro de Atos dos Apóstolos é basicamente uma lembrança acerca da forma em que os discípulos e seguidores do Senhor cumpriam a Grande Comissão ao estabelecer congregações ao longo do império. E nesse aspecto Paulo aparece como líder inigualável no estabelecimento de novas igrejas. É inegável que dentro da teologia de Paulo, a eclesiologia ocupou um lugar preponderante.

Os indivíduos são chamados pelo evangelho e remidos pelo sangue de Cristo não para manterem-se isolados, senão para serem “concidadãos dos santos e da família de Deus” como se fosse um edifício; na igreja todos são “juntamente edificados para morada de Deus em Espírito”, e assemelhando-se a um corpo, a igreja tem o propósito de que “cresçamos em tudo, naquele que é a cabeça, Cristo” (Ef 2:19, 22; 4:15). A interpretação paulina da Grande Comissão incluía, sem dúvida, o estabelecimento de congregações, e a integração dos novos conversos como “membros responsáveis de seu corpo”. 

Na interpretação da Grande Comissão, Ellen White segue os lineamentos da teologia e a prática paulina. Em um capítulo do seu livro “Atos dos Apóstolos”, dedicado a analisar a Grande Comissão, a autora usa uma paráfrase para colocar nos lábios do Cristão as seguintes palavras:

Vistes que todos os que vieram a Mim confessando seus pecados, Eu os recebi livremente. Aquele que vem a Mim, de maneira nenhuma o lançarei fora. A vós, Meus discípulos, Eu entrego esta mensagem de misericórdia. Ela deve ser dada tanto a judeus como a gentios – primeiro a Israel, e então a todas as nações, línguas e povos. Todos os que crerem devem ser congregados numa única igreja. 

Ainda sobre a importância da igreja, ressalta a autora, dizendo: “Os que se decidem pela verdade devem ser organizados em igrejas, e logo o pregador passará adiante a outros campos igualmente”, concluindo que:

Novos territórios deverão ser trabalhados por homens inspirados pelo Espírito Santo. Novas igrejas devem ser estabelecidas e novas congregações organizadas. Nesta presente época deve haver representantes da verdade presente em cada cidade e nas mais remotas partes da Terra. A Terra toda deve ser iluminada com a glória da verdade de Deus. A luz deve resplandecer em todas as terras e povos […]. 

Na teologia bíblica da igreja, pode notar-se uma delicada tensão na relação da igreja e o mundo. A Igreja é o redil onde as ovelhas encontram segurança e proteção (Jo 10); é a fortaleza de Deus, contra a qual nem sequer as forças do Hades podem prevalecer (Mt 16:18). Mas ao mesmo tempo é “a luz do mundo” e “o sal da terra que não se pode esconder nem desvanecer” (Mt 5:13-16). Os indivíduos são chamados do mundo para constituir-se em cidadãos do reino de Deus (Ef 2:19), mas ao mesmo tempo são enviados ao mundo como testemunhas da salvação recebida (Jo 17:11-18; Lc 24:45-49).

Esses dois elementos em tensão, a igreja como refúgio contra os males do mundo, e a igreja como canal de salvação para o mundo, têm produzido altos e baixos na história da missão cristã. Quando a igreja encerrou-se em si mesma, procurando proteção e segurança, sua missão cristã decresceu e, em ocasiões, deteve-se. Ao contrário, quando a igreja fortaleceu o conceito de testemunho ao mundo, a missão cristã expandiu-se e alcançou novas regiões e povos.

Em termos teológicos, denominar-se-ia tensão entre a koinonia e o kerygma, a comunhão e a proclamação. Ambos são honestos objetivos da igreja; mas a missão cristã ao mundo requer um constante fortalecimento da última. Sem a proclamação, a comunhão torna-se egocêntrica e infrutífera.

Nos escritos de Ellen White nota-se uma definida preocupação por buscar o equilíbrio ente ambos os aspectos. Tanto nas declarações dirigidas ao indivíduo como à igreja, a ideia de receber da fonte de vida através da comunhão, e a ideia de compartilhar o recebido através da proclamação, estão indelevelmente unidas:

Todo verdadeiro discípulo nasce no reino de Deus como missionário. Aquele que bebe da água viva, faz-se fonte de vida. O depositário torna-se doador. A graça de Cristo na alma é uma vertente no deserto, fluindo para refrigério de todos, e tornando os que estão prestes a perecer, ansiosos de beber da água da vida. 

E reafirma o importante papel que desempenham tanto o indivíduo quanto a igreja para buscar o equilíbrio entre a comunhão e a proclamação: 

Deus requer que Seu povo brilhe como luzes no mundo. Não é somente dos ministros que isso se exige, mas de todo o discípulo de Cristo. Sua conversação deve ser celestial. E ao passo que desfrutam comunhão com Deus, desejarão comunicar-se com seus semelhantes, a fim de exprimir, por palavras e atos, o amor de Deus que lhes anima o coração. Por essa maneira serão luzes no mundo, e a luz transmitida por meio deles não se extinguirá, nem lhes será tirada. 

A igreja assim cumpre a sua dupla função de koinonia e kerygma. A alma encontra na igreja consolo, fortaleza e inspiração através da comunhão, que por sua vez transforma-se num canal de graça, esperança e salvação através da proclamação. Uma não é completa sem a outra porque: 

A igreja é o instrumento apontado por Deus para a salvação dos homens. Foi organizada para servir, e sua missão é levar o evangelho ao mundo. Desde o princípio tem sido plano de Deus que através de Sua igreja seja refletida para o mundo Sua plenitude e suficiência. Aos membros da igreja, a quem Ele chamou das trevas para Sua maravilhosa luz, compete manifestar Sua glória. A igreja é a depositária das riquezas da graça de Cristo; e pela igreja será a seu tempo manifesta, mesmo aos “principados e potestades nos Céus” (Ef 3:10), a final e ampla demonstração do amor de Deus. 

Considerando o exposto, a igreja tem a missão de desenvolver essas três dimensões com a finalidade de cumprir o propósito ordenado por Cristo, de proclamar a mensagem da salvação, unir os crentes em comunhão com Cristo como um corpo, e expandir o Reino de Deus aguardando o breve retorno de Nosso Senhor Jesus Cristo.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A missiologia adventista está fundamentada essencialmente no próprio ordenamento de Cristo, cuja missão comissionou aos Seus discípulos e à igreja cristã para proclamar o Evangelho e expandir o Reino de Deus na Terra, preparando assim o caminho para o segundo advento de Cristo.

Nessa perspectiva, a Igreja Adventista do Sétimo Dia tem como missão e teologia levar a todo o mundo o conhecimento da Palavra de Deus, do Evangelho da Paz e da breve volta de Jesus, como fiel depositária da graça de Cristo, sendo, portanto, um instrumento a serviço de Cristo para a salvação dos homens. Como igreja, preocupa-se em conciliar seus membros, como família de Cristo, para que sejam edificados e obtenham o conhecimento da verdade, de modo a serem discípulos missionários.

A cada adventista cabe a missão de levar o Evangelho de Cristo, preocupando-se em pregar a Palavra de Deus e anunciar o advento de Cristo, contribuindo com a obra divina de salvação. A missão de todos, como igreja, é de levar o Evangelho da Salvação a todo o mundo, atingindo até aos confins da Terra de modo a expandir o Reino de Deus e apressar o Dia do Senhor. 

Dessa maneira, o crescimento da igreja adventista está pautado não apenas no valor quantitativo, no estabelecimento de igrejas ou na formalidade do número de batismos, mas, principalmente e essencialmente, no valor qualitativo da missão de expandir o Reino de Deus para promover a breve volta de nosso Senhor Jesus Cristo, fundamento principal da teologia adventista.

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